Eu não consigo ter raiva de você, mas tudo que sei é que preciso me afastar de você. Você é o meu lado mau criado, você é o meu lado irracional que faz tudo que deseja sem cogitar o sofrimento que virá (depois do deitar e, principalmente, depois do acordar).
08 julho 2009
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Eu não consigo ter raiva de você, mas tudo que sei é que preciso me afastar de você. Você é o meu lado mau criado, você é o meu lado irracional que faz tudo que deseja sem cogitar o sofrimento que virá (depois do deitar e, principalmente, depois do acordar).
02 maio 2009
aquém antônimo de além
O que não se escreve se esquece, não vira documento, ninguém sabe ninguém espreita. Tantos papéis rabiscados, tantas citações e palavras e idéias avulsas, que não sei mais o que a mim pertence e o que é de outrem. Tudo parece tão homogêneo e de ninguém. Letras envolventes, porém tão dissimuladas, omissas, envaidecidas. De minha parte, só imprecisão das idéias. Meandros. Expressões antes tão precisas, agora tão incômodas. Declarações vãs. Vicissitudes.
05 abril 2009
a poética da loucura
Porque "o teu amor me cura de uma loucura qualquer".
26 março 2009
a poética do tormento
Por que você entrou na minha vida?
Procuro o motivo,
a saliva,
o olhar,
a piada,
o riso,
a palavra,
a frase,
o gosto.
Procuro esquecer o motivo, a saliva, o olhar, a piada, o riso, a palavra, a frase, o gosto, o sexo.
02 março 2009
a poética do desejo
Antes, o desejo de desvendar, adivinhar os segredos escritos no caderninho, os sentimentos, a escritura alheia.
01 março 2009
a poética das palavras
O que nos une são as palavras.
Palavras soltas, palavras endereçadas, palavras cobiçadas, palavras estranhas, palavras vivas, palavras inventadas, palavras meticulosas, palavras melindrosas, palavras enfadonhas, palavras pequenas, palavras bobas, palavras sensitivas, palavras-imagens, palavras-planos, palavras-poemas, palavras musicadas, palavras desejadas, palavras mudas, palavras-plumas, palavras-peixes, palavras prometedoras, palavras desanimadoras, palavras risonhas, palavras inacabadas, palavras condenadas, palavras incertas, palavras vazias, palavras tropeçadas, palavras criticadas, palavras-línguas, palavras avassaladoras, palavras cortantes, palavras entorpecentes, palavras loucas, palavras saudosas, palavras palavras palavras palavras palavras.
Somos um para o outro: palavras. E a força de expressão delas.
O que nos une é o mesmo que nos afasta.
13 fevereiro 2009
Terra, terreno, terraço, terreiro, enterro, enterrar, terror, término
Enquanto meu pai carregava a arma, minha mãe regava o jardim.
Foi assim, doutor. Ele só queria enterrá-la no quintal na intenção de guardá-la. Era de um tio distante. Quis fazer isso cedinho para não chamar a atenção da vizinhança. O momento foi amaldiçoado. Questão de segundos. Eu tinha acabado de saltar da cama, nem tinha dobrado o lençol e estava comendo pão com manteiga e café quentinho quando tudo aconteceu. Eu chamei pelo pai, mas de boca cheia, me engasguei com os farelos. Quer dizer, eu tentei chamar, né? Porque engasgado, na verdade, eu grunhia. Tossi um bocado e enquanto tomava um copo d’água pra desentalar, vi uma pessoa de vestido vermelho que apareceu e sumiu. Para mim foi mesmo uma aparição. Quando chamaram pelo pai na porta da frente:
- Oh Vicente!
Aí, eu vi a sombra do marmanjo. Botei de vez toda a comida pra fora.
Vomitei. Cuspi tudo.
Quando eu reparei bem... pois não é que o Seu Nonato, pai de uns meninos que moram lá na rua de baixo, estava trazendo o Manuel, que vestia um vestido vermelho. Nem sei explicar para o senhor o que eu senti naquela hora, doutor. Meu irmão estava com a cara desfigurada, parecia que tinha levado porrada a noite toda. Ele estava... Tenho até vergonha de dizer, seu delegado, mas é o senhor quem sabe dessas coisas de lei, não é? Pois é, ele tinha era maquiagem no rosto. Senti nojo.
O pior é que esse seu Nonato veio cheio de razão dizer que o Manuel estava botando o "filhinho" dele no meio de gente que não presta. E quem presta nessa vida, doutor? Só sei que os dois começaram um bate-boca interminável. O pai veio saber que gritaria era aquela. Não sei o que deu nele quando viu o Manuel com o rosto todo borrado. Podia se preparar para o pior... Porque se tem uma coisa que o pai não admite, doutor, é ser desonrado, e mais, diante dos outros. Ao ver aquela cena, ele se transformou e esbravejou sua dor. O destino não perduou. O Manuel gritava com a voz rouca pedindo pra ele não fazer nada antes que lhe explicasse tudo. Não adiantou. O olhar de meu pai era de ofendido, envergonhado... Ele insultou. E condenou. Meu pai quis lutar contra a humilhação. Eu quis lutar contra a ira de meu pai. Seu Nonato, quando percebeu o desassossego saiu às pressas. Com as mãos sujas da terra molhada, meu pai pulou em cima do meu irmão e deixou cair a arma.
Ainda pude ver minha mãe tranqüila colhendo rosas no jardim.
No alarido da confusão, enquanto voltava o olhar para os dois e pensava em uma maneira de como agir, meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho estrondoso dos tiros.
O pai passou mal.
Perdi os meus sentidos por um instante.
A cor vermelha do vestido misturava-se ao sangue.
Meu pai balbuciou baixinho:
- Manchei o nome de minha família.
Quis ter impedido a zanga de meu pai ou a maldita antes que chegasse
ao chão. Ao cair, o revólver disparou dois tiros certeiros em Manuel. Eu vacilei, doutor, mas não tenho culpa. Eu só obedeci ao pai: “Não se meta, porque tô ensinando o teu irmão a ser macho, até isso eu tenho que ensinar pra ele”.
Não tenho nada a ver com a briga deles não, viu, doutor?!
A minha mãe? A mãe é surda.
Ora, eu estou dizendo para o senhor.
Ela perguntou se o Manuel já tinha chegado. Queria saber se o espetáculo teatral tinha sido aplaudido. Se o personagem de travesti poderia render fama.
Manuel paralisado.
Eu disse para ela trazer as rosas.
Na manhã seguinte um déjà vu. Novamente na hora do café vi o pai enterrando a arma, e Manuel.
18 janeiro 2009
o último dos jangadeiros

18º Cine Ceará Festival Ibero-Americano de Cinema Prêmio de Melhor Mostra Olhar do Ceará (júri popular) Abril 2008
FX – Festival de Vídeo Acadêmico 1ª edição Universidade Autónoma de Lisboa Menção Honrosa Dezembro 2007
O documentário conta as memórias de um jangadeiro que desafiou condições sociais e políticas da década de 70 do século passado, no Ceará, e decidiu enfrentar o mar tendo uma única causa a ser defendida: a sobrevivência dos pescadores. O Sr. José Eremilson Severiano Silva, presidente da Colônia dos Pescadores na época, relembra a viagem que percorreu o Atlântico. Em uma pequena e precária embarcação (jangada), o pescador saiu do Mucuripe na cidade de Fortaleza e foi até Ilha Bela em São Paulo com a pretensão de reivindicar os direitos dos jangadeiros junto ao Presidente da República, na época o militar Emílio Garrastazu Médici. Uma viagem por mar que durou seis meses. O pescador retira do fundo do baú as melhores lembranças dessa aventura e conta também as dificuldades vividas. Uma história emocionante que retrata uma das principais conquistas dos jangadeiros cearenses: o direito à aposentadoria. A história de vida desse personagem transformou a atividade pesqueira no Estado do Ceará, e, consequentemente, colaborou para historiar fatos significantes para este Estado e para o Brasil.
10 janeiro 2009
possuída
Indignações.
Se pudesse fugir de si para não ter que enfrentar as próprias indagações.
Quais as conseqüências quando os atos vão além da imaginação?
Como se o que acontecesse
fosse pintura
desenho borrado
que se tornara uma linda obra com chamativos traços
[vermelhos] de prazer.
Certo dia diferente
que escapa às regras e aos limites e dá espaço para a libertação do desejo de ter posse sobre outro corpo – assim ardente como o seu.
Procura as palavras e o momento contagiante.
Os descontrolados corações [unidos]
trocas de expressões [desfiguradas]
cujos olhares respondem às perguntas que fazem os gestos
o cheiro dos corpos aquecidos
o suor
arrepio frio
coração a bater forte e tremer as mãos
que não se importam se estão pecando
nesse (in)esperado instante
que é seu é meu é nosso
e toda aquela sensibilidade
guardada
escondida
ser deliciosamente tocada.
21 dezembro 2008
recordações
A maioria dos membros da minha família mora numa cidadezinha a duzentos quilômetros daqui. Sempre, nas férias, feriados ou datas comemorativas, voltávamos para a simplicidade e calmaria daquele interiorzinho quente. Deixando mamãe contentíssima em voltarmos ao ninho materno. Ao anoitecer, diariamente, filhos, genros, noras, netos e um ou outro parente que aparecia de quando em quando, reuniam-se ao lado do jardim, na varanda de piso mosaico, da casa verde da vovó. Nós, os netos não conhecemos o vovô. Os adultos sentados em cadeiras de balanço, rindo-se, tomando um cafezinho com uns pães-de-ló, falando do dia e dos outros. A meninada correndo solta, brincando de pega-pega, mas só depois de pedir a bênção e cada um dizer: “Deus te abençõe”. Vovó Dina fazia questão que fosse assim. Anos e anos assim. Toda a minha infância assim. Inesquecível. Aquele cheiro orvalhado e toda aquela gente minha. Estávamos empolgados e jubilosos para o aniversário de oitenta anos da vovó. Seria no sítio, para reunir toda a família, até aqueles mais distantes e esquecidos. Mas ela não quis e não agüentou. Estava gélida e linda toda de branco. Morreu minha avozinha... Caminho do hospital em frente à igreja de Santo Antônio. Tão fiel católica que era. Na missa, o padre falou que o céu ganhou uma nova estrela. Todas as noites eu olhava para o céu, querendo encontrá-la. Aquela que nos dava biscoitinhos e não brigava com nenhuma danação nossa. Aquela de sorriso frouxo e encantador.
A casa ficou vazia e sem graça. Foi alugada. Todos reservados em suas casas, sem mais conversas e planos para festas. O ano inteirinho, só se conversava e se via quando visitávamos alguns e outros sem pressa. Não tinha mais um lugar e um horário, em que todos pudéssemos nos reencontrar, como antes todos juntos de uma vez.
O Natal estava próximo. A tia mais nova inventou de fazer uma ceia. Alguns resistiram ao convite. Tudo muito simples, sem peru, mas com muito prazer e muitos presentes.
– Seja bem-vindo...
– Ah, que bom que você veio...
Naquela noite natalina estava todo mundo junto. Lembranças, um choro miúdo e silencioso. Orações, trocas de presentes, brincadeiras, enfeites, sobremesas deliciosas, fotografias, pisca-pisca, música, meninada correndo solta, aquele cheiro orvalhado e toda aquela gente minha...
06 dezembro 2008
espera
a espera é tão-somente pelo ser amado.
a espera é unicamente para acordar curado.
(sem dor e sem amor)
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08 outubro 2008
conto de outubro: um coração sitiado
“... mas o que me impressionou mesmo eram os olhos:
seu brilho, sua animalidade e sua inquietação...”
(Mulheres de Charles Bukovisk)
Vou andar pelas ruas, me sentir nua, me matar.
28 setembro 2008
crônica de domingo: unha encravada
Domingo à tarde. Estava passando do meu quarto para o quarto de minha mãe, quando vi meu irmão e sua namorada na sala de estar, namorando. Não foi possível conter, eu ri. Ele estava com sua pose de homem casado, relaxado, assistindo à TV. Ela, por sua vez, estava concentrada em sua função: a de manicure. Isso mesmo. Ela estava “fazendo” as unhas dele.
Ri, porque lembrei que já vi essa cena uma penca de vezes. Quando criança, acompanhava o namoro de uma vizinha mais velha e todo domingo, estava ela lá limpando, lixando, hidratando as “patas” do namorado. Achava até bonito, um gesto carinhoso, mas também constrangedor. É por amor ou um favor?
Desde que comecei a namorar nunca me ocorreu desempenhar esse papel. Nunca me dispus a tal tarefa. Não dou conta, não tenho jeito com as mãos. E não “sinto muito” por isso. Um ex-namorado - de longo tempo - veio certa vez dizer que era de se estranhar eu não cuidar de suas unhas. Era só o que me faltava! E ainda completou dizendo - assim meio menino mau criado - que todas as suas ex-namoradas cumpriam com entusiasmo essa função. Imagine só a cara de pau. Respondi sem calcular: olha aqui, meu filho, sou sua namorada, e ser apenas isso, já me dá muito trabalho, não posso me ocupar com mais essa tal atividade não. Você que se responsabilize por si. Ora!
É curioso. Sempre vi amigas e vizinhas cuidarem das mãos e dos pés dos seus amados. Cortando, lixando, tirando cutículas, unha encravada...
Pergunto: por que as namoradas têm que posar de samaritanas e fazer de conta que gostam de limpar as unhas do namorado? Por que o homem não é capaz de ir ao salão para fazer isso com um(a) profissional? Falta de tempo? Ou isso comprometeria sua reputação? Seria vaidade em excesso ou uma questão de higiene? Por que o homem não se sente ofendido com isso? Não estaria ela desconfiando da sua higiene pessoal? Por que ele recebe esse ato de bom grado?
Pois, revelo: o que era para ser ocasional, um ato de ternura com o namorado considerado especial e que já se tem intimidade suficiente, torna-se hábito, ou obrigação mesmo, e se repete a cada domingo, ou a cada novo namorado. Não se trata de um cuidado todo especial para com o então digníssimo atual namorado especial. Não. Trata-se da boa vontade da namorada em querer agradar o namorado, seja qual for. E quando solteiras, se fossem capazes de admitir essa fraqueza, diriam: eu queria um namorado para ao menos cuidar de suas unhas!
Surpresos? Para elas considero ainda pior, pois depois que os namorados se acostumam, aí, querida super namorada, não se livrará jamais da função de manicure. Acostumou mal. É isso mesmo que você, mulher apaixonada, quer, não é? Afinal, você é a mulher-maravilha, além de dotar todas as características de uma namorada perfeita dando carinho, colo, rumo e amor, você também cuida da higiene pessoal dele, enquanto namorada, e depois da casa, do jardim, do cachorro, e se duvidar até do carro quando se casarem, mas e daí, você está apaixonada, e o que fazemos quando somos flechados pelo cupido?! Uma pessoa apaixonada faz muitas coisas, não? Uma unha encravada é o de menos. O amor cravado no peito é um investimento sem preço.
18 setembro 2008
tum-tum-tum
olha-me deixando-me fascinar por teu encantamento
e numa desesperada loucura
de ter-te,
querer-te sentir
perco-me em pensamentos esparsos
e desejo te gostar sem que o medo me acompanhe
mas
pensar em ti
para quê?
é pensamento em vão,
[é perdido]
pois tu deves estar ocupando
a tua vida e
o teu coração
e eu?
a me prender em enclausurados pensamentos
tão longe de ti
que nem sonhas o quanto eu sonho
o quanto eu quero
quero e sinto
em vão
não
vou chorar
tento
não agüento
14 setembro 2008
terceiros
Sente necessidade de colo e mão firme. Os que sentem teu cheiro percebem-te diferente. Ela sabe. És teimosa. Difícil de convencê-la. Está tão envolvida consigo mesma que se tornou difícil sair de si para se observar. Está sensível às cores, às palavras, às músicas, ao silêncio. Não sabe o porquê da sensibilidade e torna-se mais cautelosa com as escolhas. E recatada. Guardando para si as inquietações do coração, sentindo-as no âmago. Improvisando dia e noite. Sente algo morrer e parece não ter tempo para viver o luto. Muda de comportamento, mas tem a essência imutável. Começa a compreender o momento – será divino ou amaldiçoado? – quando silencia corpo e pensamento. É o danado gosto por gente.
Mas serás divina ou amaldiçoada?
E dá conta de que não se permite chorar. Sua voz interior ordena: sinta o que for cale-se, silencie, observe.
03 setembro 2008
sem título
tudo pra mim
tudo por mim
tudo sou eu
tudo quero eu
31 agosto 2008
recomeço
O amor nunca vem só
com o seu encantamento
a esperança de que dessa vez será para sempre é a primeira a chegar
as dúvidas acompanham os encontros iniciais
a posse surge nos primeiros meses
e as diferenças não tardam a aumentar
com o seu sofrimento
o choro é o primeiro a sair
as boas lembranças acompanham os passos da despedida
o arrependimento surge nas últimas conversas
e a dor da ausência não tarda a se alastrar
com a sua certeza de que ficará tudo bem
a vontade de recuperar os momentos vividos é a primeira a chegar
a insegurança acompanha as novas juras de amor
o risco de vacilar desorienta os sentidos nos primeiros reencontros
as promessas de não mais errar surgem com a reconciliação
e o amor, permissivo, não tarda a se reaproximar do coração
25 agosto 2008
se
eu queria que sentisses o que eu sinto
eu queria te possuir
eu queria te levar comigo
eu queria te mostrar quem sou
que eu desabe
que o verso acabe
que tu te cases
antes que eu me esqueça de mim
20 agosto 2008
sobre coincidências
fico aflita quando penso em coincidências.
elas são imprevisíveis,
são encantadoras e assustadoras,
são efêmeras,
espontâneas,
são incontroláveis,
são (in)desejadas
e são puras.
que fazer com elas, meu Deus?
18 agosto 2008
a letra B
eu te beijo
os sentimentos
beijo com sentimento
sinto para beijar
beijo para sentir
sinto o beijo
beijo e sinto
beijo sentindo
beijo os beijos
mas nada é igual a ter
sentimento no beijo.